Antes da sentença, uma conversa
A destruição de Sodoma e Gomorra é uma das cenas mais conhecidas das Escrituras Sagradas. Fogo, enxofre, cidades desaparecendo.
Mas, antes que qualquer fogo caísse do céu, houve uma conversa.
O texto narra que, depois de visitarem Abraão, os homens se levantaram e olharam na direção de Sodoma. Abraão os acompanhava pelo caminho. E o Senhor fez uma pergunta que parece dita para dentro de Si mesmo: ocultaria de Abraão aquilo que estava para fazer?
A Palavra de Deus nos dá a razão: Abraão havia sido escolhido para ensinar aos seus filhos e à sua casa a guardar o caminho do Senhor, praticando a justiça e o juízo.
Esse detalhe é importante. Antes de falar da destruição, o texto fala de justiça. E é justamente sobre justiça que Abraão e o Senhor vão conversar.
Os motivos de uma decisão
O texto narra que o clamor de Sodoma e Gomorra havia aumentado e que o pecado daquelas cidades havia se agravado imensamente.
“Disse ainda o SENHOR: ‘Com efeito, o clamor de Sodoma e Gomorra aumentou e o pecado deles se agravou imensamente. Descerei e verei se, de fato, o que têm praticado corresponde ao clamor que chegou até mim; e, se não, o saberei.’”
Gênesis 18:20–21 — JFAAL
A Bíblia não apresenta a decisão de Deus como um ato impulsivo. Sodoma não aparece aqui pela primeira vez. Alguns capítulos antes, quando Ló escolheu habitar naquela região, as Escrituras já registravam que os homens de Sodoma eram maus e grandes pecadores contra o Senhor (Gênesis 13:13).
Outros textos da Palavra de Deus nos ajudam a compreender a dimensão daquele pecado. O profeta Ezequiel, séculos depois, descreve a iniquidade de Sodoma como soberba, fartura de pão e próspera tranquilidade, e diz que ela não fortaleceu a mão do pobre e do necessitado (Ezequiel 16:49–50). O capítulo 19 de Gênesis mostra a violência dos homens da cidade contra os hóspedes de Ló. E o Novo Testamento lembra Sodoma como exemplo de uma vida entregue à corrupção (2 Pedro 2:6–8; Judas 7).
Não precisamos acrescentar nada ao que a Bíblia diz. O que ela diz já é suficiente para nos fazer parar.
Sodoma era próspera, farta e tranquila. E, ainda assim — ou talvez justamente em meio a tudo isso —, havia ali um clamor subindo aos céus.
Talvez seja esse o ponto que mais nos confronta: a iniquidade humana nem sempre se parece com o caos. Às vezes, ela se parece com conforto, com fartura e com indiferença.
E então surge uma pergunta difícil:
Quantos clamores existem ao nosso redor que deixamos de ouvir porque estamos confortáveis demais?
O Deus que desce para ver
Há uma expressão no versículo 21 que merece atenção. O Senhor diz que desceria e veria se aquilo que acontecia correspondia ao clamor que havia chegado até Ele.
“Descerei e verei se, de fato, o que têm praticado corresponde ao clamor que chegou até mim; e, se não, o saberei.”
Gênesis 18:21 — JFAAL
É preciso cuidado para não fazer o texto dizer o que ele não diz. A Escritura não está afirmando que Deus desconhecia o que acontecia em Sodoma. Essa é uma linguagem humana para falar de Deus, semelhante à usada na torre de Babel, quando o Senhor “desceu para ver” a cidade que os homens edificavam (Gênesis 11:5).
Mas, se não é ignorância, o que essa linguagem nos ensina?
Talvez nos ensine que Deus não julga à distância.
Antes da sentença, há verificação. Antes do juízo, há presença. O Senhor não age a partir de rumores. Ele “desce”, aproxima-se, vê.
E há também a palavra clamor. Nas Escrituras, ela muitas vezes aparece ligada ao grito de quem sofre. É a mesma ideia de quando Deus diz a Moisés que ouviu o clamor do Seu povo oprimido no Egito (Êxodo 3:7).
Isso nos faz pensar que o clamor de Sodoma talvez não fosse apenas o barulho do pecado. Podia ser também o grito dos que sofriam por causa dele. O texto não detalha quem clamava. Por isso, não podemos afirmar além do que está escrito. Mas a Palavra de Deus nos mostra, em toda a sua extensão, um Deus que não é surdo ao clamor.
Se Deus desce para ver o clamor, o que Ele encontraria ao descer até a nossa casa, a nossa igreja, a nossa cidade?
Abraão permaneceu diante do Senhor
O texto narra que os homens seguiram em direção a Sodoma, mas Abraão permaneceu diante do Senhor.
Ele poderia ter voltado para sua tenda. Não voltou.
Aproximou-se e fez uma pergunta ousada: destruiria o Senhor o justo com o ímpio?
E depois vem uma das frases mais fortes de toda a passagem:
“Longe de Ti, que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio, como se o justo fosse igual ao ímpio; longe de Ti! Não fará justiça o Juiz de toda a terra?”
Gênesis 18:25 — JFAAL
Abraão não questiona a santidade de Deus. Ele apela a ela. Sua intercessão não nasce de desconfiança, mas de conhecimento: ele sabe que o Senhor é justo, e é exatamente por isso que ousa pedir.
De cinquenta a dez
Então começa uma das conversas mais impressionantes das Escrituras Sagradas.
Cinquenta justos. O Senhor responde que, se encontrasse cinquenta justos em Sodoma, pouparia o lugar por amor deles.
Quarenta e cinco. Quarenta. Trinta. Vinte.
A cada pedido, Abraão parece mais consciente de quem ele é diante de quem está falando. Ele se reconhece pó e cinzas:
“E Abraão respondeu: ‘Agora me atrevo a falar ao Senhor, eu que sou pó e cinzas.’”
Gênesis 18:27 — JFAAL
Pede que o Senhor não se ire. Continua falando. E chega a dez.
O Senhor responde que, por amor de dez, não destruiria a cidade.
Esse é o último pedido registrado de Abraão. Então lemos:
“E o Senhor se retirou após ter terminado de falar com Abraão, e Abraão voltou para o seu lugar.”
Gênesis 18:33 — JFAAL
É importante perceber o que a Escritura narra e o que ela não narra. O último número mencionado por Abraão é dez. A Bíblia não nos conta por que ele parou nesse número.
Talvez por reverência. Talvez por receio de ter ido longe demais. Talvez por acreditar que dez já seria um número pequeno o bastante para que a cidade fosse poupada.
Não sabemos. E não precisamos afirmar aquilo que o texto silencia.
Mas podemos deixar que esse silêncio nos faça perguntas:
Onde nós paramos de pedir?
Quantas vezes nossa oração termina não porque Deus fechou a porta, mas porque nós deixamos de bater?
Por quem eu continuaria intercedendo, mesmo quando tudo parece perdido?
Havia alguém em Sodoma
Há um nome que não aparece em nenhum momento nessa conversa: Ló.
Abraão fala de justos. Fala de números. Mas não pronuncia o nome do sobrinho.
E, ainda assim, é difícil ler essa passagem sem lembrar que Ló morava em Sodoma, com sua esposa e suas filhas.
O que vem a seguir não é o que a Bíblia afirma. É o que nos permitimos imaginar.
Alguns capítulos antes, quando reis inimigos atacaram Sodoma e levaram cativos os seus moradores, Ló estava entre eles. E as Escrituras Sagradas narram que Abraão, ao ouvir que o seu parente havia sido levado, reuniu os homens da sua casa, perseguiu os inimigos e trouxe de volta Ló, os seus bens e também o povo da cidade (Gênesis 14:12–16).
Ali, o texto liga diretamente a ação de Abraão à captura de Ló. Isso a Bíblia diz.
O que ela não diz é o que se passava no coração de Abraão, nem naquela batalha nem diante do Senhor em Gênesis 18.
Será que, enquanto falava de cinquenta, de vinte, de dez justos, havia um rosto em sua mente?
Será que aquela intercessão, tão cuidadosa e tão insistente, carregava um nome que ele não chegou a pronunciar?
Não podemos afirmar. Mas há um versículo que, no mínimo, nos faz pensar. Depois da destruição, as Escrituras dizem que Deus se lembrou de Abraão e tirou Ló do meio da destruição:
“E ocorreu que, ao destruir Deus as cidades da campina, Ele se lembrou de Abraão e retirou Ló do meio da devastação, quando subverteu as cidades onde Ló havia vivido.”
Gênesis 19:29 — JFAAL
O texto não diz que Abraão pediu por Ló. Diz que Deus se lembrou de Abraão.
E talvez isso já seja suficiente para tocar o nosso lado humano:
Quando intercedemos por muitos, quantas vezes há, no fundo da oração, um nome que não pronunciamos?
Quem é o “Ló” pelo qual você ora em silêncio?
Para guardarmos no coração
Havia um clamor subindo de Sodoma.
O Senhor desceu para ver.
Abraão permaneceu diante d'Ele.
Pediu por cinquenta. E foi descendo, até dez.
Ali termina o último pedido registrado. O Senhor se foi. Abraão voltou ao seu lugar.
A iniquidade humana pode se esconder no conforto, na fartura e na indiferença ao clamor de quem sofre. Mas a Palavra de Deus também nos mostra um homem que não foi indiferente. Ele permaneceu, perguntou, intercedeu.
Talvez hoje o Senhor esteja nos convidando a fazer o mesmo:
não deixar de ouvir os clamores ao nosso redor e não parar de pedir cedo demais.
Continuamos aprendendo.
Continuamos intercedendo.
Sempre aprendizes.