Antônio Moura

Fé • Espiritualidade • Literatura Bíblica

Uma história que começou muito antes dos livros

Antônio Moura aprendeu ainda menino que algumas das maiores riquezas de uma família não podem ser medidas pelo que existe dentro de casa.

Caçula de cinco irmãos, ainda era bebê quando seu pai deixou a família em razão dos problemas com a bebida. Coube à mãe criar sozinha os cinco filhos em uma vida marcada por dificuldades, trabalho e muitas limitações. Ao recordar aqueles anos, porém, Antônio não descreve uma mulher derrotada pelas circunstâncias. A imagem que guarda é a de uma leoa protegendo seus filhotes.

Foi com ela que aprendeu algumas das primeiras lições sobre fé, perseverança e gratidão. Mesmo quando sobre a mesa havia apenas uma refeição simples, a mãe ensinava os filhos a agradecer a Deus pelo alimento.

Talvez tenha começado ali uma pergunta que o acompanharia por muitos anos:

Quem é esse Deus em quem minha mãe confia tanto?

O menino e as Escrituras Sagradas

Assim que aprendeu a ler, Antônio encontrou na Bíblia algo que iria muito além da curiosidade de uma criança.

As histórias do Antigo Testamento o fascinavam. Era comum sua mãe encontrá-lo pelos cantos da casa lendo as Escrituras Sagradas. Reis, profetas, homens e mulheres de um mundo distante povoavam sua imaginação. Ele se perguntava como seria caminhar por aqueles lugares, presenciar aqueles acontecimentos e conviver com aquelas pessoas.

Naquele tempo, lia porque gostava das histórias.

Ainda não compreendia que, muitos anos depois, voltaria aos mesmos personagens procurando neles algo diferente.

A vida precisaria passar primeiro.

Da leitura ao ensino

As dificuldades fizeram Antônio começar a trabalhar ainda adolescente para ajudar a mãe. O trabalho, porém, nunca lhe tirou o encantamento pelas Escrituras Sagradas.

Já casado, passou a frequentar a Igreja do Nazareno de sua cidade, onde foi batizado. A igreja logo se tornou mais do que o lugar dos cultos. Antônio passou a trabalhar diariamente ali, cuidando dos assuntos de secretaria da igreja, auxiliando o Reverendo em suas atividades e também sua esposa, responsável pela escolinha mantida pela igreja, um Jardim de Infância.

Entre o trabalho e a convivência diária com a comunidade, continuava estudando aquilo que sempre amara. Participava da Escola Bíblica Dominical e de outras atividades promovidas pela igreja, até que surgiu o convite para liderar uma turma.

Não estudava por obrigação. Estudava por amor.

Com o tempo, foi consagrado presbítero. E sua relação com a Bíblia ganhou uma nova dimensão. Já não bastava apenas ler: era preciso estudar, compreender, preparar e encontrar maneiras de compartilhar com outras pessoas aquilo que aprendia.

Passou a produzir seus próprios planos de aula para a Escola Bíblica Dominical e a preparar esboços a partir das passagens que estudava para suas pregações. O menino que lia porque aquelas histórias o encantavam havia se tornado também professor, não porque considerasse possuir todas as respostas, mas porque descobrira a alegria de aprender e ensinar.

Quando a fé também encontrou a música

A música tornou-se outro caminho dessa mesma história.

Na própria Igreja do Nazareno, onde trabalhava e servia diariamente, Antônio também encontrou seu lugar entre as vozes. Sua voz grave levou-o ao posto de baixo no coral da igreja. Ao lado de outros três irmãos da igreja, integrou um quarteto de vozes masculinas. E o violão passou a acompanhá-lo.

Entre o trabalho da secretaria, os estudos, cultos, ensaios e acordes, começaram a nascer canções de adoração. Aquilo que algumas vezes Antônio procurava expressar ensinando também encontrava outra linguagem na música.

Décadas depois, muitas dessas canções, juntamente com memórias e reflexões sobre a vida e as Escrituras Sagradas, encontrariam abrigo em Minha Fortaleza — Cantos de uma Vida.

Quando as histórias começaram a falar sobre a própria vida

Os anos trouxeram casamento, filhos e uma família que atravessaria gerações.

Foram 47 anos de companheirismo ao lado da mulher que Antônio considera um presente de Deus em sua caminhada. Vieram dois filhos, quatro netos e quatro bisnetos. Vieram também alegrias, dificuldades, perdas, medo, saudade, escolhas e recomeços.

E, depois de tantos anos vividos, os personagens que conhecera quando menino começaram a lhe parecer diferentes.

As Escrituras Sagradas não falavam apenas de grandes acontecimentos. Falavam de pessoas.

Homens e mulheres que amavam, temiam, erravam, sofriam, faziam escolhas, caíam, levantavam-se e continuavam caminhando. Pessoas que viveram em outro tempo, mas carregavam sentimentos que continuavam profundamente humanos.

Antônio começou então a compreender que havia um pouco de sua própria caminhada naquelas histórias.

Não porque as Escrituras Sagradas tivessem sido escritas sobre ele, mas porque nelas encontrou algo que atravessa gerações: a relação entre Deus e seres humanos imperfeitos, procurando compreender a vida enquanto a vivem.

O nascimento do escritor

Escrever, na verdade, já fazia parte de sua vida.

Antes dos romances vieram os planos de aula, os esboços de pregação e as canções. A leitura constante havia criado uma longa convivência com as palavras, mas durante muito tempo elas estiveram principalmente a serviço do ensino e da fé.

Até que os personagens que o fascinavam desde a infância pediram outro espaço.

Nasceu o desejo de não apenas estudar suas histórias, mas de imaginá-los em sua humanidade: suas casas, suas famílias, conversas, medos, conflitos, esperanças e tudo aquilo que poderia existir entre os grandes acontecimentos registrados nas Escrituras Sagradas.

Desse desejo nasceu O Guardião da Memória do Mestre, seu primeiro livro. A obra permaneceria guardada durante anos, mas a literatura já havia encontrado seu lugar.

Outras histórias vieram. Algumas foram concluídas. Outras mudaram de nome e cresceram com o tempo. Algumas ainda esperam o momento de serem terminadas.

Mas o caminho estava aberto.

Continuar caminhando

Antônio Moura não escreve como alguém que acredita possuir todas as respostas sobre Deus ou sobre a vida.

Escreve como alguém que continua caminhando.

O menino que lia a Bíblia pelos cantos da casa tornou-se homem, marido, pai, avô, bisavô, professor, presbítero, músico e escritor. E, depois de tantos anos, continua retornando às mesmas páginas que o fascinavam na infância.

Só que agora as lê de outra maneira.

Hoje compreende que, enquanto imaginava como seria viver as histórias daqueles personagens, sua própria história também estava sendo escrita.

E talvez seja essa uma das razões pelas quais continua escrevendo: para convidar outras pessoas a abrirem as Escrituras Sagradas e descobrirem que aquelas histórias antigas ainda podem nos ajudar a compreender nossas quedas, nossos recomeços, nossa esperança e o caminho que ainda temos pela frente.

“Lá na frente descobri que meu Pai celestial já havia escrito a minha história.”

— Antônio Moura