Antes da ovelha, havia pessoas
Existem histórias de Jesus que começam antes de Ele pronunciar a primeira palavra da parábola. A ovelha perdida é uma delas.
Lucas nos conta que publicanos e pessoas consideradas pecadoras aproximavam-se de Jesus para ouvi-Lo. Enquanto elas se aproximavam, fariseus e escribas murmuravam porque Jesus recebia aquelas pessoas e comia com elas.
É nesse ambiente que a parábola nasce.
Antes do campo, do rebanho e do pastor, havia pessoas querendo chegar perto de Jesus — e outras incomodadas porque Ele permitia que chegassem.
Isso é importante porque nos impede de ler a parábola apenas como uma bela história sobre uma ovelha que se perdeu. Jesus estava respondendo a pessoas reais e a uma maneira de olhar para aqueles que se aproximavam dEle.
Talvez, por isso, a primeira pergunta deste estudo não deva ser sobre a ovelha.
Talvez devamos perguntar a nós mesmos:
Quando alguém se aproxima de Jesus, somos capazes de nos alegrar com sua chegada ou primeiro decidimos se aquela pessoa merece estar perto dEle?
Uma entre cem
Jesus então fala de um homem que possui cem ovelhas e percebe que uma delas se perdeu.
É apenas uma.
Se transformássemos a cena em números, poderíamos dizer que 99% do rebanho permanece e somente 1% está perdido. Essa porcentagem não está no texto; é apenas uma maneira de percebermos a proporção apresentada por Jesus.
Mas o pastor da parábola não faz uma conta para decidir se aquela perda pode ser suportada.
A ausência de uma é percebida.
O pastor vai procurá-la.
É importante não fazer a parábola dizer aquilo que ela não diz. Jesus não afirma que a ovelha perdida passou a valer mais do que as noventa e nove. Também não diminui o valor das que permaneceram.
Aquela ovelha importa também.
Ser uma entre cem não fez com que deixasse de pertencer ao pastor.
E talvez exista aqui algo que precisamos recordar:
ninguém se torna insignificante para Deus simplesmente porque se perdeu.
Quantas vezes nós somos aquele 1%?
É fácil ler a parábola imaginando que a ovelha perdida é sempre outra pessoa.
Alguém que abandonou a fé. Alguém que nunca conheceu Cristo. Alguém cuja vida tomou caminhos que consideramos errados.
Mas quantas vezes, ao longo da vida, nós mesmos nos sentimos perdidos como aquela ovelha?
Há circunstâncias que podem nos fazer sentir como aquele 1%.
Uma perda inesperada. Uma enfermidade. Uma decepção. Uma culpa que carregamos por muito tempo. Uma oração cuja resposta parece não chegar. Uma decisão errada. O medo do amanhã. Ou simplesmente aqueles períodos em que continuamos caminhando, mas já não sabemos muito bem para onde estamos indo.
Podemos conhecer as Escrituras e nos sentir perdidos.
Podemos frequentar uma igreja e nos sentir perdidos.
Podemos ensinar outras pessoas e, em determinados momentos, precisar novamente ser conduzidos.
Reconhecer isso não significa negar nossa fé. Significa reconhecer que continuamos dependentes do Pastor.
Talvez hoje estejamos seguros entre as noventa e nove. Amanhã, as circunstâncias podem nos fazer sentir aquele 1%.
E, quando isso acontecer, não desejaremos que alguém olhe para os números e diga:
“Não há problema. Ainda restam noventa e nove.”
Precisaremos nos lembrar de que:
para o Pastor, ser apenas um entre cem nunca significa ter menos valor.
O Pastor que procura
Há uma expressão importante na pergunta de Jesus: o pastor vai atrás da ovelha perdida até encontrá-la.
O movimento começa no pastor.
A ovelha está perdida, mas não foi esquecida.
Essa imagem não retira do ser humano sua responsabilidade. O próprio Jesus termina a parábola falando de arrependimento. Existe resposta, mudança e retorno.
Mas, antes de chegarmos ao último versículo, Jesus nos convida a olhar para um pastor que percebe uma ausência e sai à procura.
Isso nos ensina algo sobre o coração de Deus.
Aquele que se perdeu não é tratado como alguém que deixou de importar porque se afastou. Existe busca.
Talvez algumas pessoas tenham aprendido a enxergar Deus apenas como alguém que espera para puni-las quando erram ou se afastam.
Jesus nos apresenta também a imagem do Pastor que procura.
Sobre os ombros
Quando finalmente encontra a ovelha, o pastor não retorna arrastando-a pelo caminho.
Jesus diz que ele a coloca sobre os ombros, com alegria.
A parábola não nos conta por que a ovelha se perdeu. Não sabemos quanto tempo ficou distante, quanto caminhou ou em que condições foi encontrada.
Jesus escolhe destacar outra coisa: a alegria de quem a encontrou.
Aqueles ombros dizem muito.
Há momentos em que conseguimos caminhar.
Há outros em que precisamos ser carregados.
Talvez por isso a figura do pastor atravesse as Escrituras com tanta força. Ela fala de cuidado, direção, proteção e dependência.
Nenhum de nós cresce espiritualmente a ponto de não precisar mais ser conduzido por Deus.
O professor continua aprendiz.
Quem orienta também precisa de direção.
Quem consola também atravessa dias em que precisa ser consolado.
Quem fala sobre fé também pode enfrentar momentos em que precisa se lembrar daquilo que tantas vezes ensinou.
Continuamos dependentes do cuidado do Pastor.
“Alegrem-se comigo”
O pastor volta para casa trazendo consigo a ovelha que havia se perdido. Então reúne amigos e vizinhos e os convida a participar de sua alegria.
A ovelha foi encontrada.
Jesus explica que, da mesma maneira, há alegria no céu por um pecador que se arrepende.
E isso nos leva de volta ao início da passagem.
Enquanto publicanos e pessoas consideradas pecadoras se aproximavam de Jesus para ouvi-Lo, fariseus e escribas murmuravam porque Ele as recebia e comia com elas.
Na parábola, porém, quando aquilo que estava perdido é encontrado, o convite não é para murmurar.
É para alegrar-se.
Talvez esteja aqui uma das perguntas mais difíceis desta história:
Quando o Pastor traz de volta quem estava perdido, somos capazes de participar da alegria dEle?
É possível desejarmos misericórdia quando somos nós que precisamos dela e termos dificuldade de aceitá-la quando alcança alguém que nos feriu.
É possível agradecermos pelo perdão que recebemos e, ainda assim, olharmos com desconfiança para aquele que está tentando recomeçar.
É possível conhecermos muito sobre o amor de Deus e ainda termos muito a aprender sobre amar o próximo.
A parábola não nos pede que chamemos o erro de acerto, nem que tratemos arrependimento como algo sem importância. O próprio Jesus fala de um pecador que se arrepende.
Mas ela nos obriga a olhar para aquilo que acontece dentro de nós quando alguém é encontrado.
A misericórdia continua nos parecendo tão bonita quando é oferecida a alguém que temos dificuldade de receber?
Essa pergunta talvez incomode.
E talvez precise incomodar.
Porque amar o próximo não significa apenas amar aqueles cuja presença nos é agradável. Também significa permitir que Deus confronte nossos ressentimentos, nossos julgamentos e a facilidade com que, algumas vezes, esperamos compreensão para nossas próprias fraquezas enquanto somos severos com as fraquezas dos outros.
Quando o pastor diz “Alegrem-se comigo”, ele não convida os outros apenas a reconhecer que a ovelha voltou.
Ele os convida a compartilhar sua alegria.
Talvez seja essa uma das coisas que ainda precisamos aprender com o Pastor:
não apenas aceitar que alguém foi encontrado, mas aprender a nos alegrar porque voltou.
O mesmo Pastor
A ovelha que se perdeu não precisou de outro pastor para ser encontrada.
Era o mesmo pastor das noventa e nove.
Seu cuidado com aquela que se perdeu não significava falta de cuidado com as que permaneceram. A busca por uma não diminuía o valor das outras.
Aquela ovelha importava também.
Isso nos ajuda a compreender por que não precisamos transformar as personagens da parábola em posições permanentes.
Há momentos em que podemos nos identificar com aquela que se perdeu e precisa ser encontrada.
Em outros momentos, estamos entre aqueles que permanecem e somos convidados a nos alegrar quando alguém retorna.
E pode haver ocasiões em que nos aproximamos perigosamente daqueles que murmuravam, julgando quem deveria ou não ser recebido.
Por isso continuamos aprendizes.
Mas talvez possamos levar conosco ainda outra pergunta.
Jesus encerra essa pequena história na alegria do encontro. Ele não nos conta o que aconteceu com a ovelha depois que voltou ao rebanho.
Por isso, o que vem agora não é uma continuação da parábola. É uma reflexão para nós:
O que fazemos com a experiência de termos sido encontrados?
Quem já precisou ser carregado pode aprender a olhar com mais compreensão para quem hoje não consegue caminhar.
Quem já se sentiu perdido pode tornar-se mais sensível diante daquele que ainda procura o caminho.
Quem recebeu misericórdia tem razões para ser misericordioso.
A experiência pode nos ensinar. Pode produzir humildade. Pode mudar a maneira como olhamos para as fraquezas do outro.
E talvez nos ensine também algo sobre nós mesmos: ter sido encontrado não significa que passamos a não precisar mais do Pastor.
Continuamos caminhando.
Continuamos aprendendo.
Continuamos dependentes do Seu cuidado.
A ovelha encontrada não precisa voltar pensando que agora sabe caminhar sozinha.
Pode voltar sabendo um pouco melhor por que precisa do Pastor.
Onde estou nessa história?
Talvez esta seja uma pergunta que não possa ser respondida da mesma maneira todos os dias:
Onde estou nessa história hoje?
Estou me sentindo perdido?
Estou vivendo circunstâncias que me fizeram perder a direção?
Estou precisando aceitar que não consigo caminhar sozinho?
Estou entre aqueles que podem acolher alguém que está voltando?
Tenho conseguido me alegrar quando a misericórdia de Deus alcança outra pessoa?
Ou comecei, mesmo sem perceber, a decidir quem considero digno de receber a mesma misericórdia que um dia pedi para mim?
Talvez exista ainda outra pergunta:
O que a experiência de ter me sentido perdido me ensinou sobre a maneira como olho para quem hoje precisa ser encontrado?
Não precisamos responder rapidamente.
Talvez hoje nos reconheçamos em uma dessas perguntas e, em outro momento da vida, em outra.
As circunstâncias mudam. Nós também mudamos.
A Palavra permanece diante de nós e continua nos convidando a olhar para o nosso próprio coração.
Algumas perguntas das Escrituras merecem permanecer conosco depois que fechamos a página.
Não porque tenham ficado sem resposta, mas porque talvez precisemos respondê-las novamente ao longo da caminhada.
Para guardar no coração
Uma ovelha se perdeu.
Sua ausência foi percebida.
O pastor foi procurá-la.
Encontrou-a.
Colocou-a sobre os ombros.
E voltou com alegria.
Talvez hoje você esteja atravessando um daqueles momentos em que as circunstâncias o fazem sentir-se como aquela única ovelha entre cem.
Se for assim, lembre-se: ter se perdido não fez com que aquela ovelha deixasse de ser importante para o pastor.
Para o Pastor, ser apenas um entre cem nunca significa ter menos valor.
Mas talvez hoje você esteja entre aqueles que permaneceram.
Então existe outra coisa para guardar no coração: quando alguém for encontrado, alegre-se com o Pastor.
A misericórdia que alcança o outro não diminui aquela que um dia alcançou você.
E, seja qual for o lugar em que hoje nos reconhecemos nessa história, continuamos precisando do mesmo Pastor.
Continuamos caminhando.
Continuamos aprendendo.
Continuamos dependentes do Seu cuidado.
Para continuar refletindo
Antes de seguir adiante, talvez valha a pena voltar ao início.
Leia novamente Lucas 15:1–7.
Desta vez, observe com calma três movimentos da passagem: pessoas se aproximam de Jesus, outras murmuram porque Ele as recebe e, na parábola, o encontro daquilo que estava perdido termina em alegria.
Depois, se desejar, continue a leitura até o final de Lucas 15. A ovelha perdida é seguida pela moeda perdida e pela história do pai e de seus dois filhos. Perceba como perda, encontro e alegria continuam atravessando o capítulo.
E leve consigo uma pergunta:
Quando a misericórdia de Deus alcança outra pessoa, consigo me alegrar com aquilo que alegra o coração do Pastor?
Não tenha pressa em responder.
Talvez essa pergunta volte a encontrá-lo em outros momentos da vida.
Da mesma caminhada
A imagem do pastor também encontrou lugar em uma das canções que nasceram da minha caminhada de fé.
Em O Bom Pastor, escrevi sobre amor e perdão que podem permanecer adormecidos no coração e sobre a necessidade de permitir que Jesus continue sendo aquele que nos conduz.
Se desejar, depois deste estudo, leia a letra de O Bom Pastor.
Não como conclusão daquilo que Lucas 15 tem a ensinar — porque nenhuma canção poderia ocupar esse lugar —, mas como mais uma oportunidade de continuar refletindo sobre o Pastor, a ovelha e o amor que não desiste de procurar.