Pregação
Fui convidado para pregar pela primeira vez. E agora?
A primeira pregação traz medo, dúvidas e responsabilidade. Algumas orientações bíblicas e a experiência de quem já viveu esse momento podem ajudar você a dar os primeiros passos.
Há convites que nos alegram e, ao mesmo tempo, nos assustam.
Ser convidado para pregar pela primeira vez pode ser um deles.
Talvez você tenha recebido o convite com alegria. Talvez tenha dito “sim” e, alguns minutos depois, começado a imaginar tudo o que poderia dar errado. A passagem que escolher. O que dizer. Como começar. Como terminar. O que fazer se esquecer alguma coisa.
E ainda existe algo mais profundo: a responsabilidade de se levantar diante de outras pessoas para falar sobre a Palavra de Deus.
Se você está passando por isso, quero começar lhe dizendo algo simples: eu também passei.
Um Novo Caminho
Lembro-me da minha primeira pregação como se tivesse acontecido há pouco tempo.
Eu me imaginava como alguém que sempre vivera uma vida de altos e baixos, medos e quedas e que, de repente, estava diante de uma nova realidade. Haveria pessoas diante de mim ouvindo a exposição da Palavra de Deus. E eu sabia que elas não observariam apenas a passagem bíblica escolhida. Naturalmente, também perceberiam a pessoa que estaria diante delas: sua postura, sua segurança, a convicção com que apresentaria aquilo que havia estudado.
Aquilo me assustava.
O que eu faria com o medo? Com a insegurança? Como me levantaria diante daquelas pessoas sabendo da responsabilidade de explicar a Palavra que tinha em mente?
Foi então que me lembrei de Abrão.
Pensei na promessa de Deus em sua vida e na responsabilidade que ele carregava. Sarai estava com ele. Ló também. Havia servos e pessoas que dependiam das decisões que tomaria. Havia ainda a herança deixada por Terá e tudo aquilo que fizera parte de sua história.
Mas chegara o momento de partir.
Ur dos Caldeus ficaria para trás. Canaã se descortinava à sua frente.
E percebi que, guardadas todas as proporções, eu também estava começando uma caminhada. O velho homem teria que dar lugar a uma nova criatura. Uma parte da minha história ficava para trás, enquanto Deus colocava diante de mim responsabilidades que até então eu não conhecia.
Foi assim que nasceu minha primeira mensagem.
Dei a ela o título “Um Novo Caminho”.
A Bíblia me dava as respostas. Mas havia também o meu lado humano: o medo, a insegurança, a sensação de não estar preparado para aquilo.
Depois de me apresentar à igreja, orei.
E alguma coisa mudou.
O medo e a insegurança perderam a força que exerciam sobre mim. Não porque, de repente, eu tivesse me transformado num grande pregador. Não porque todas as dúvidas tivessem desaparecido.
Mas porque tive a certeza de que não estava sozinho.
O Espírito Santo do Deus que eu aprendera a conhecer desde os ensinamentos de minha mãe estava ali comigo.
Então comecei.
Você não precisa parecer um pregador
Talvez uma das primeiras armadilhas de quem recebe a oportunidade de pregar seja imaginar como um pregador deve falar.
Você já ouviu pessoas que dominam o púlpito. Conhece pregadores que parecem encontrar as palavras certas com naturalidade. Talvez admire alguém pela voz, pela maneira de construir uma mensagem ou pela segurança com que expõe as Escrituras.
E pode surgir um pensamento:
“Eu nunca conseguirei fazer isso.”
Não tente.
Pelo menos, não tente ser aquele pregador.
Ouça, aprenda, observe e reconheça aquilo que há de bom no ministério de outras pessoas. Mas não transforme admiração em imitação.
Deus não chamou você para ocupar o púlpito com a voz de outra pessoa.
Estude. Prepare-se. Ore. Aprenda.
Mas, quando chegar a hora de se levantar diante da igreja, a voz precisa continuar sendo a sua.
Comece pelo texto bíblico
Antes de pensar em uma frase bonita para abrir a mensagem, comece pelas Escrituras.
Leia o texto.
Depois leia novamente.
Procure compreender o que está acontecendo naquela passagem. Quem está falando? Para quem? O que aconteceu antes? O que acontecerá depois? Qual é a verdade central daquele texto?
Resista à vontade de decidir primeiro o que deseja dizer e depois procurar um versículo que confirme sua ideia.
Deixe a Palavra conduzir a mensagem.
Na minha primeira pregação, foi a experiência de Abrão que me ajudou a compreender o momento que eu próprio estava vivendo. Mas o centro não poderia ser Antônio. Precisava continuar sendo aquilo que as Escrituras revelavam.
Nossa experiência pode ajudar alguém a compreender uma verdade bíblica. Ela não pode tomar o lugar dessa verdade.
E o título?
Depois de compreender a passagem e perceber com clareza aquilo que pretende transmitir, um título pode ajudar a dar identidade e direção à mensagem.
Mas não comece por ele.
Quando preparei minha primeira pregação, eu poderia pensar em títulos como “O que ficou para trás?”, “Uma nova vida” ou “Um novo caminho”.
Escolhi “Um Novo Caminho” porque, depois de estudar e refletir sobre o texto, aquelas palavras expressavam melhor aquilo que eu compreendia da mensagem e também do momento que estava vivendo.
O título deve servir à mensagem.
A mensagem não deve ser forçada para caber no título.
Faça um caminho simples para seguir
Uma das coisas que mais podem ajudar quem está começando é ter diante de si uma estrutura simples.
Você não precisa escrever cada palavra que pretende pronunciar. Mas pode organizar a mensagem de maneira que saiba para onde está indo.
Pense em três perguntas:
- O que este texto diz?
- O que precisamos compreender?
- O que isso significa para nossa vida?
A partir delas, organize uma introdução, os pontos principais e uma conclusão.
Isso lhe dará um caminho.
E, se em algum momento o nervosismo fizer você se perder, será muito mais fácil olhar para suas anotações, respirar e encontrar novamente o lugar onde estava.
Não complique para parecer profundo
A profundidade não está nas palavras difíceis.
Está na fidelidade com que conseguimos levar alguém a compreender melhor a Palavra de Deus.
A congregação não precisa descobrir quantas palavras difíceis você conhece. Não precisa saber quantos livros consultou durante a semana. E você não precisa provar que merece estar no púlpito.
Se uma verdade pode ser explicada de maneira simples, explique-a de maneira simples.
Jesus falava sobre sementes, campos, moedas, ovelhas, pescadores, pais e filhos. Coisas que as pessoas conheciam.
A simplicidade não diminui a mensagem.
Muitas vezes, torna-a compreensível.
E se eu me perder durante a pregação?
Pode acontecer.
Você pode esquecer uma palavra. Pode olhar para suas anotações e, por alguns segundos, não encontrar o ponto seguinte. Pode começar uma frase e perceber que não era exatamente aquilo que pretendia dizer.
Respire.
Alguns segundos de silêncio que parecem uma eternidade para quem está pregando talvez nem tenham a mesma dimensão para quem está ouvindo.
Não transforme um pequeno tropeço em uma queda maior apenas porque ficou assustado com ele.
Isso aconteceu comigo mais de uma vez.
Em alguns momentos precisei simplesmente respirar e voltar ao texto da Bíblia.
E a mensagem continuou.
Sua segurança não está em nunca cometer um pequeno erro. Está em saber onde reencontrar o caminho quando ele acontecer.
Ore antes de subir ao púlpito
Prepare-se seriamente.
Estude a passagem. Consulte aquilo que puder ajudá-lo a compreendê-la. Organize suas anotações. Leia novamente. Confira se aquilo que pretende dizer realmente corresponde ao texto.
Mas não transforme preparação em autossuficiência.
Ore.
Ore enquanto estuda.
Ore quando estiver inseguro.
Ore antes de começar.
Foi isso que aconteceu comigo naquela primeira pregação. Eu havia preparado a mensagem, mas ainda carregava dentro de mim o medo.
Depois da oração, a Bíblia continuava sendo a mesma. Minhas anotações continuavam sendo as mesmas. Eu continuava sendo a mesma pessoa.
Mas já não me sentia sozinho.
Você continua sendo humano
Talvez esta seja uma das coisas mais importantes que aprendi ao longo dos anos.
O púlpito não elimina nossa humanidade.
Quem está diante da igreja continua tendo história, limitações, lembranças, lutas e sentimentos. Continua podendo sentir medo. Continua precisando aprender.
Por isso, não espere tornar-se alguém sem inseguranças para começar a servir.
Prepare-se com responsabilidade. Reconheça suas limitações. Continue estudando. Aceite correções. Aprenda com aqueles que caminham há mais tempo.
E, quando chegar o momento, levante-se sabendo que você continua sendo humano.
Não precisa esconder isso.
Apenas não permita que o medo fale mais alto do que aquilo que Deus colocou diante de você.
Quando chegar a sua vez
Talvez você esteja lendo este texto porque a sua primeira pregação será daqui a alguns dias.
Talvez seja amanhã.
Talvez você ainda nem tenha aceitado o convite.
Eu não sei qual será o texto escolhido por você. Não sei qual será o tamanho da igreja, quantas pessoas estarão sentadas diante do púlpito ou quanto tempo lhe deram para falar.
Mas conheço um pouco do medo que pode estar sentindo.
Eu já estive ali.
Minha primeira mensagem nasceu quando olhei para Abrão deixando para trás aquilo que conhecia e caminhando em direção ao que Deus colocava diante dele.
Muitos anos se passaram desde aquele dia.
Vieram outras mensagens, aulas, estudos, acertos e também momentos em que precisei aprender novamente.
Mas aquela primeira experiência nunca perdeu seu valor.
Porque antes de descobrir como seria pregar, precisei descobrir que poderia dar o primeiro passo.
Prepare sua mensagem.
Leia a Bíblia mais uma vez.
Ore.
Respire.
E, quando chegar a hora, levante-se.
Não como a pessoa que já sabe tudo.
Mas como alguém que estudou, orou e deseja, com fidelidade, compartilhar aquilo que encontrou na Palavra de Deus.
Em resumo
- Comece pelas Escrituras. Compreenda o texto antes de decidir o que deseja dizer.
- Organize um caminho simples. Introdução, desenvolvimento e conclusão ajudam você a não se perder.
- Não tente imitar outro pregador. Aprenda com outros, mas preserve sua própria voz.
- Não tenha medo da simplicidade. Profundidade não depende de palavras difíceis.
- Prepare-se e ore. O estudo é necessário, mas você não precisa transformar preparação em autossuficiência.
- Aceite sua humanidade. Um pequeno silêncio, uma palavra esquecida ou um momento de nervosismo não destroem uma mensagem preparada com responsabilidade.